Braço de atacarejo puxa as vendas das grandes redes

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Durante o período mais agudo da crise econômica recente (2014-2016), a receita de vendas do varejo supermercadista cresceu sistematicamente acima da receita de vendas do varejo como um todo.

O resultado pode ser explicado tanto pelo aumento dos preços dos alimentos no período quanto pelo fato de que supermercados comercializam itens de primeira necessidade, cujas vendas são menos sensíveis às oscilações da economia quando comparadas às de itens do setor de vestuário e eletrodomésticos, por exemplo.

Passado o pior momento da crise, com ligeira recuperação do crédito e do mercado de trabalho acompanhada pela redução da inflação, nota-se que, entre o terceiro trimestre de 2017 e o segundo trimestre de 2018, a receita dos supermercados cresceu abaixo da média do varejo como um todo. Nos últimos dois trimestres, o segmento se recuperou e vem registrando crescimento da receita em um ritmo próximo ao da média do varejo.

Embora a crise tenha afetado menos a atividade supermercadista do que a de outros segmentos varejistas, ela também impactou a dinâmica do setor. Por um lado, o orçamento mais apertado durante os anos de recessão levou consumidores a comprarem cada vez mais em atacadistas, em busca de melhores preços –hábito que vem se mantendo mesmo com a melhora do cenário econômico.

Por outro, como alternativa às altas taxas de desocupação e subutilização da mão de obra, vem crescendo substancialmente a quantidade de microempreendedores no país e, com eles, a demanda por produtos vendidos no atacado.

Essa mudança de comportamento vem se refletindo nas receitas das principais redes supermercadistas do país, alavancadas pelo expressivo crescimento das vendas em suas atacadistas, também conhecidas como atacarejos (Atacadão, no caso do Carrefour, e Assaí, no caso do Grupo Pão de Açúcar).

Apenas no último trimestre do ano passado, em relação ao mesmo período de 2017, enquanto a receita de vendas dos supermercados como um todo cresceu 7%, a do varejo do Grupo Pão de Açúcar, 3%, e a do Carrefour, 1%, a receita de vendas do Atacadão registrou alta de 15% e a do Assaí, aumento de expressivos 23%.

Além da crescente participação das redes atacadistas, outro aspecto chama atenção nos resultados e ações das duas principais redes de supermercados do país em 2018: o avanço em e-commerce e serviços financeiros.

No Carrefour, as vendas no e-commerce alcançaram R$ 1,4 bilhão em 2018, valor 110% maior na comparação com 2017. Somente o marketplace representou cerca de 15% das vendas na média do ano (contra 3% em 2017). Para agilizar o processo de transformação digital, foi criado inclusive o Carrefour eBusiness Brasil (CeBB).

O faturamento dos cartões Carrefour e Atacadão e outros produtos financeiros, por sua vez, registrou crescimento de 31,5% em 2018, o que contribui para o avanço de 33,3% da carteira de crédito, para R$ 8,4 bilhões. Como base de comparação, de acordo com informações da ABECS, o faturamento total do mercado brasileiro de cartões cresceu 14,5% no ano passado.

Já o Grupo Pão de Açúcar registrou crescimento do e-commerce alimentar de 63,5% somente no quarto trimestre. Também como base de comparação, o e-commerce brasileiro, segundo dados do E-bit, registrou crescimento de 12% no ano passado.

Ou seja, tanto o Carrefour quanto o Grupo Pão de Açúcar vêm registrando taxas de crescimento bastante superiores à média do mercado no segmento. Em relação aos avanços nos serviços financeiros, destaque ainda para o anúncio, em setembro do ano passado, de que a Rede Assaí começaria a vender maquininhas de cartão de crédito e débito com a marca “Passaí”, passando, assim, a oferecer às micro e pequenas empresas clientes da rede serviços próprios de adquirência e antecipação de recebíveis.

O Carrefour, por sua vez, já oferece carteira digital para realização de pagamentos móveis. As transformações digitais, portanto, também já estão afetando a dinâmica e a estratégia das duas principais redes de supermercados do país.

O orçamento mais apertado das famílias e o crescimento da quantidade de microempreendedores, fatores responsáveis pelo forte crescimento das vendas das redes atacadistas nos últimos anos, também representam enorme potencial para expansão de serviços digitais com menores custos para esses consumidores e empresas.

Com informações de Flávio Calife, economista da Boa Vista

Fonte Diário do Comércio
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