De olho no Pé de Fava: as lições de liderança de “Pesadelo na Cozinha”

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O chef de cozinha francês Erick Jacquin foi um dos assuntos mais comentados na semana e virou até meme. Basta abrir qualquer rede social (do Facebook ao Instagram), que você vai se deparar com uma série de fotos do francês, em prints dos principais momentos da série “Pesadelo Na Cozinha”, liderada por ele.

Tudo graças ao primeiro episódio do programa, com o restaurante Pé de Fava, em Guarulhos, na Grande São Paulo, como cenário de uma tragédia de erros.

A intenção do programa é resolver os problemas de sete estabelecimentos e reformar a estrutura dos lugares. Com o restaurante em questão, o francês encontra mais problemas do que imaginava.

De freezer desligado à noite para economizar energia até gritaria enquanto os clientes comem, surge o grande desafio de resolver uma situação difícil e ainda gerir um equipe em conflito.

Como liderar uma equipe que não se dá bem?

Gritos. Xingamentos. Um chefe que esbraveja o tempo todo para que você produza. Aquele colega de trabalho que rebate tudo o que você fala. Uma pitada de raiva e uma panela de pressão perto de explodir (não literalmente, ainda bem). Muitos podem se identificar com essa descrição de um ambiente de trabalho caótico. E o Pé de Fava, de acordo com o que é mostrado no episódio, não foi exceção.

“O problema físico, eu resolvo rápido, mas o psicológico, não”, diz Jacquin depois de ouvir os vários gritos do dono do estabelecimento. Além da reforma no local, o chef também precisa fazer uma reforma interna e responder uma questão que muitos gestores se fazem: como liderar uma equipe com tantos problemas de comportamento?

Para Rodrigo Vianna, CEO da Mappit, empresa do Talenses Group especializada no recrutamento em vagas de início de carreira, o gestor deve, nessas situações, conversar com cada um e, acima de tudo, confiar na capacidade de sua equipe.

“É preciso saber reconhecer os pontos fortes de cada profissional e valorizá-los, e inclusive elogiá-los para todo o grupo. Em relação aos pontos fracos de cada colaborador, por outro lado, é importante convidar o profissional para uma conversa individual”, afirma.

E sobre o que falar na sessão de feedback improvisada?

“Nessa conversa, o respeito é sempre preponderante. É necessário ter um diálogo sério, com afirmações incisivas, mas sem ultrapassar os limites do respeito. Nesse momento, o gestor precisa não apenas apontar as falhas do profissional, como em alguns casos auxilia-lo a encontrar ferramentas para resolver esses pontos. Essa é a função de um líder”, diz.

E foi o que Jacquin fez.

Cuidado para não perder as estribeiras

Apesar do ponto positivo na conversa e na busca para entender o que estava acontecendo, em determinado momento, Jacquin se irrita. “Está me ouvindo?”, pergunta o chef. “Então cala sua boca”, completa ele, visivelmente bravo com a situação.

É claro que a cena foi cômica e rendeu bons memes, mas, na vida real, existem formas de evitar se irritar com a sua equipe e não correr o risco de virar figurinha no WhatsApp. “De certa modo, o tom que cada gestor dá para essas conversas depende muito da personalidade e da maturidade emocional dele”, diz Vianna.

Depois da situação, Jacquin diz: “eu me exaltei, mas eu estou certo”. Apesar de estar certo, é bom tomar cuidado com o modo como as coisas são faladas.

“É importante lembrar que dependendo da maneira como o gestor diz algo, por mais que o conteúdo seja correto, a forma pode fazê-lo perder a razão”, garante.
Tentar ser um bom líder apesar das más experiências

Apesar de tomar atitudes corretas no episódio, Jacquin já foi um líder com problemas no passado. O francês já foi alvo de diversos processos trabalhistas por ser muito duro com as equipes em restaurantes que teve durante sua carreira. Em entrevista a VEJA, em 2017, ele chegou a dizer que “nunca mais assinaria uma carteira de trabalho”.

De acordo com Jacquin, foi o Masterchef que o fez procurar ser mais humilde e fazer um “mea culpa”. “Virei um docinho de coco”, disse ele à época.

Aprender com os próprios erros e se tornar um líder melhor é possível também para quem não é um chef renomado. “É preciso efetivamente aprender com as experiências ruins e aplicar esses aprendizados nos próximos passos da vida profissional. O mais importante aqui é reconhecer que realmente erros aconteceram. Se a pessoa não conseguir fazer essa autoanálise e reconhecer que um erro aconteceu, dificilmente conseguirá mudar sua forma de agir, pois para ela a sua conduta é adequada”, afirma Vianna

“Além disso, mesmo que a pessoa reconheça que houve um erro, é possível que ela tenha dificuldades de mudar sua maneira de agir, por conta de inúmeros aspectos relacionados a sua personalidade, história de vida, referências. Nesses casos, o coaching ou a psicoterapia podem ser ferramentas interessantes”, continua.
Deixar de lado a gestão agressiva

Para Vianna, o chefe agressivo, como parece ser o caso do dono do Pé de Fava, não tem mais tanto espaço no mercado de trabalho, mesmo ainda existindo. “Essa ‘liderança tóxica’ só gera desconforto para a equipe, o que implica seriamente na dificuldade de retenção de talentos da empresa. Não basta ser excelente tecnicamente, se não tiver bom relacionamento interpessoal, por exemplo”, explica.

A crença de que o chefe carrasco é o que dá mais resultados é refutada por pesquisadores e pode ser responsável pelo burnout dos funcionários. Segundo uma pesquisa da revista norte-americana Harvard Business Review, um líder agressivo tem maiores chances de ser punido por seus erros ao longo da vida. Então pode confiar no famoso carma, se você acreditar nisso.

“Esse tipo de gestor gera medo em seus colaboradores, e esse medo pode fazer seu time se atentar para cometer menos falhas e conquistar resultados positivos. Mas, hoje, a cultura corporativa já tem reconhecido que essa não é a melhor forma de atingir metas”, pontua. “A partir dessa pressão psicológica, não é possível extrair o que há de melhor em cada profissional. Nenhum indivíduo gosta de trabalhar dessa forma”, finaliza.
Bônus Masterchef

Que os três jurados do programa Masterchef, da Band, têm tipos de gestão diferentes, todo mundo sabe.

Fogaça, Paola Carosella e Jacquin demonstram, ao longo das temporadas do reality, maneiras diferentes de encarar os problemas com os participantes. “Consegui perceber que os três líderes são muito bons tecnicamente, e são sempre sinceros, firmes e incisivos com os feedbacks, sejam eles positivos, ou negativos”, afirma.

Para Vianna, Fogaça e Jacquin são mais duros e podem soar agressivos quando falam, o que não é algo positivo para um gestor. “A Paola tem uma abordagem mais sensível e empática. Por mais que ela também aponte os erros, o modo dela fazê-lo é mais respeitoso. Por isso eu prefiro a forma como a Paola lidera”, diz.

Fonte Exame.com
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