O que de fato está impactando o pequeno varejista brasileiro?

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Por Caio Camargo, sócio-diretor da GS&UP, potencializadora de Negócios do Grupo GS& Gouvêa de Souza

Realidade Virtual, superaplicativos, omnicanalidade. A série de novos termos que a tecnologia trouxe ao cenário do varejo brasileiro é gigante. Se buscar se manter ao menos alinhado com o que há de novo já se mostra uma tarefa complexa aos grandes players do mercado, os pequenos e médios varejistas têm um desafio ainda maior, pois mesmo quando há consciência da necessidade de atualização, a disposição de energia e capital de investimento é restrita, impedindo grandes avanços.

Já caíram por terra os tempos e as frases que sentenciavam que o varejo físico iria morrer, ou que estávamos em uma fase de apocalipse do varejo, ou ainda que o digital iria dominar o mercado. O tempo, por mais curto que tenha sido, já ajudou a provar que o que haverá é uma sinergia gigante entre esses dois meios, o digital e o físico, de modo que não faça mais sentido uma visão desassociada de negócios.

Mas como fica o pequeno varejo em meio a tudo isso?

É lógico que existem varejistas e varejistas. Haverá sempre os que já nascem antenados com o que está acontecendo, desafiando o mercado com novas propostas ou novos modelos de negócios, mas o que vai acontecer com a imensa maioria que vem fazendo tudo do mesmo jeito há anos, até mesmo décadas? Por onde começar?

A maior mudança, sem dúvidas, está nas questões de como o cliente deseja pagar e receber por seus produtos e serviços.

O tempo é o agora, e a forma é cada vez mais digital, principalmente através de aplicativos e celulares.

Caio Camargo, sócio-diretor da GS&UP

Muitos varejistas estão se transformando através da adesão a serviços de entregas, como Rappi, iFood, James Delivery, entre outros. E esse não é um movimento que parte do que o varejista e seu entendimento sobre o que é bom para o negócio, mas parte do desejo dos clientes de que as principais marcas e negócios com que eles se relacionam também estejam disponíveis nesses tipos de aplicativos. Se o varejista não está lá, há sempre o risco de outra empresa ganhar uma oportunidade com seu cliente.

Junto à praticidade de se pedir algo por meio de um aplicativo, a régua da expectativa de entrega também subiu. Se ainda esperar uma hora por uma pizza parece algo normal para alguns negócios, queremos ser atendidos em questão de poucos minutos. Quem ainda esperaria 20 minutos por um táxi hoje?

Percebe-se que a resistência e a dificuldade de inovar, sendo o protagonista na transformação de seus negócios, fez com que o pequeno varejo hoje se torne um verdadeiro refém das inovações e aplicativos de empresas terceiras, muitas delas startups, com muito menos tempo de mercado que a maioria dos negócios.

Não à toa, muitos desses varejistas veem serviços que trazem vendas, mesmo que cobrando taxas absurdas e até mesmo abusivas, como um “mal necessário”. Só é necessário hoje porque não se fez nada antes.

Na briga pela competitividade, nunca se fez tão necessário ter excelência na gestão e operação dos negócios. Sistemas que hoje até mesmo ajudam a provisionar o melhor estoque, ou calcular melhores preços, se tornam grandes aliados. E se contratar um sistema de uma grande empresa ainda é algo visto como de alto custo, há a opção de contratação de startups e pequenas empresas que começam a oferecer serviços de menor custo (até mesmo gratuitos em alguns casos), e melhor focados no tipo de negócio do qual sua empresa faz parte.

A propagação de serviços de empresas como Amazon e chinesas, como o Alibaba, prometem dar um verdadeiro choque no mercado em relação às suas expectativas de como comprar e receber. Os recém-lançados serviços e aparelhos guiados por voz, através da Alexa (Google também anunciou na semana passada sua chegada), tende a criar uma necessidade ainda maior de se atender de forma pontual e cada vez mais imediata.

Amazon e Alibaba já anunciaram seus planos de centros de distribuição e até mesmo a possibilidade de se tornarem potenciais compradores dos Correios, caso ocorra de fato a privatização.

A questão da experiência se mostra ainda essencial. A loja não vai deixar de existir, mas cumpre um papel muito mais complexo do que apenas ser um ponto de venda. Talvez esse seja um dos maiores riscos. Quem ainda opera sua loja somente como um ponto de distribuição entre alguém que produziu algo e alguém que vai comprar, ou seja, um amontoado de produtos distribuídos entre gondolas e prateleiras, são os que mais correm riscos de sumirem do mercado, não importando seu tamanho ou tempo de mercado.

Esse vão enfrentar uma concorrência cada vez mais forte dos competidores digitais com preços cada vez mais agressivos, e até mesmo com entregas melhores e mais fáceis que a sua. O quê? Você não faz entrega e o consumidor precisa ainda vir até sua loja como única alternativa de compra? Está na hora de rever seus conceitos.

Oferecer um “algo a mais”, ou um verdadeiro motivo para que alguém saia de casa e vá até sua loja, ainda é o grande segredo para conseguir se defender de alguma maneira de tudo o que vem acontecendo. Um ambiente atrativo ou confortável, atendimento acolhedor e facilitador na hora de resolver problemas, entre outros aspectos, são aqueles que fazem a diferença na hora de escolher comprar com você ou através de um aplicativo ou site, por exemplo.

Manter-se antenado e competitivo não é uma das tarefas mais fáceis, mas se antes era algo que parecia ainda opcional ou apenas aspiracional, hoje se mostra cada vez mais necessário para a sobrevivência dos negócios. A hora é agora.

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