Economista prevê recuperação do consumo

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Por Rúbia Evangelinellis

Recém-saída de uma crise sem precedentes, a economia brasileira em 2018 apresenta um novo fôlego, está livre de pressão inflacionária e caminha com perspectiva de aumento de consumo acima do PIB. A opinião é de Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, que defende um apostura firme do governo para promover as reformas necessárias, principalmente a fiscal, a fim de dar sustentação à retomada.

Doutora em economia pela USP – Universidade de São Paulo, Zeina reconhece na reforma da Previdência a espinha dorsal do ajuste fiscal, e, portanto, do controle dos gastos públicos. A economista também considera fundamental que as lideranças do setor privado cobrem firmemente do governo o cumprimento de uma agenda de ajustes para o estabelecimento de um ambiente de negócios mais propício e promissor. “O que define um País que cresce é a qualidade da sua elite, e de uma sociedade que seja tolerante com as reformas necessárias. Gostando-se ou não do que aconteceu com a nossa política, temos um governo que segue na direção correta e já estamos colhendo frutos disso”,afirmou, em entrevista concedida com exclusividade para a revista DISTRIBUIÇÃO.

O que podemos esperar da inflação em 2018?

O mercado tem a expectativa de que ela fique abaixo da meta, de 4,5%, o que considero muito plausível por várias razões. Primeiro, o cenário internacional não é inflacionário. Segundo, não há motivos para pressão cambial, para a supervalorização à moda norte-americana, considerando-se que os países vão bem e apresentam crescimento disseminado, o que deixa o dólar e o mercado de moedas no mundo com baixa volatilidade. É possível observar esse movimento há vários meses. Tanto que tivemos grande volatilidade de bolsa no Brasil e no mundo, mas a taxa de câmbio ficou abaixo de 3,3 reais. Se tivéssemos nervosismo no mercado cambial, como ocorreu em 2015, a inflação seria maior. Hoje, trabalho com um intervalo do câmbio entre 3,10 reais a 3,40 reais para este ano, com alguma volatilidade considerada natural no mercado.

Quais são outros fatores que ajudam a segurar a inflação?

O terceiro elemento é a grande ociosidade da economia, o que dificulta o repasse ao consumidor de uma possível pressão de custo. Estamos ainda no início de uma recuperação, com a taxa de desemprego elevado, e, além disso, a indústria ainda carrega uma ociosidade significativa. O quarto elemento que permite o controle da inflação é importante e está no fato de que, diferentemente do que vimos ao longo da gestão de Dilma Rousseff, quando havia estímulo excessivo na economia tanto na política fiscal como na concessão do crédito pelos bancos públicos, hoje não há mais isso, apesar de o rombo fiscal ser enorme. Isso faz muita diferença na inflação. Governo que gasta demais, pesa na política monetária.

E quanto aos preços dos alimentos?

Se houver pressão nos alimentos, acho que será contida.

Você arrisca uma projeção para este ano?

Não faço projeção na marca do gol, mas acredito algo em torno de 4%.

E quanto ao consumo, será uma reação tímida?

Há várias razões para ser e conhecer que está ocorrendo uma recuperação lenta do consumo, mas isso depende do setor. A primeira está no fato de que ainda não deu tempo de o corte de juros causar um efeito pleno no consumo. Quando o Banco Central reduz a taxa, são necessários dois trimestres para sentir o reflexo na economia, e o auge do impacto ocorre depois de um ano. A segunda razão está no fato de que a crise que o Brasil viveu,e da qual estamos saindo, teve um forte impacto nas condições financeiras da economia, no orçamento das famílias e no balanço das empresas, além de ganhar outros contornos.

Como assim?

A marca-chave dessa crise foi a perda de emprego pelo chefe de família, o que não vimos em outras crises, juntamente com a alta dos juros e o aperto do crédito, que aumentou as dificuldades das famílias, comprometeu o nível de renda e aumentou as dívidas em patamares históricos. Essa crise machucou as famílias e as empresas, principalmente depois que o Brasil perdeu o grau de investimento. E a criação de vagas tende a ser mais lenta.

E foi uma crise longa…

Longa e muito diferente da que ocorreu em 2008, a qual foi provocada por causas externas. Mas a nossa foi, de fato, made in Brazil, fruto de erros internos. Um aspecto que eu destaco é o de que o consumidor permanece conservador, com medo do desemprego. Precisamos ter um quadro de geração mais robusta de empregose de avanço mais firme no consumo. Acredito que isso ainda ocorrerá em 2018. Vemos que o brasileiro já fez um esforço para reduzir dívidas em atraso e, com isso, o crédito vai voltando. Mas ainda falta reduzir o medo do desemprego.

Mas o consumo crescerá ainda nesse ano?

Acredito que o consumo das famílias, que ainda está reprimido, deverá aumentar acima do PIB (Produto Interno Bruto), em uma margem de um ponto percentual.

Na crise, o consumidor teve de fazer ajustes na cesta de compras do mercado, mudando para marcas mais baratas ou reduzindo volume de compras. Você acredita que o aprendizado ficou registrado?

Espero que sim. As sociedades evoluem quando aprendem com seus erros. Mas é preciso considerar que tivemos um governo que estimulou de maneira irresponsável o consumo com o aplauso do setor produtivo. Agora quem paga é a sociedade. Que isso sirva de lição para o setor produtivo, que deve ter aprendido a não apoiar políticas públicas irresponsáveis.

E a influência do cenário político?

Não vejo o quadro eleitoral como algo que vá trazer maiores preocupações neste ano. Em 2018, a tendência dos mercados é conceder o benefício da dúvida aos candidatos, e espero que tenham, grosso modo, um discurso mais responsável para a economia, o que deverá ajudar a conter a volatilidade. Acho que a questão consiste em saber como será 2019, considerando que o novo presidente não terá lua de mel e deverá chegar com uma agenda consistente.

Quais serão os principais desafios em 2018?

Fiscal, fiscal e fiscal. Considero que a reforma da Previdência será o primeiro passo para dar continuidade a esse ciclo da agenda fiscal. Não dá mais para o setor produtivo fazer de conta que o problema não é dele. Se as lideranças do País só ficarem olhando para o seu próprio umbigo, vamos dar um abraço de afogados. Temos de reduzir os gastos públicos, ou melhor, conter o crescimento das despesas. A espinha dorsal do ajuste fiscal é a reforma da Previdência, que é o gasto que mais cresce em um momento em que a população envelhece rapidamente.

Como você vê a transição do cenário político?

O próximo presidente fará ajustes ou não terminará o mandato. É preciso entregar e dar andamento à agenda de reformas, especialmente da Previdência. Se o presidente Michel Temer não conseguir aprová-la neste ano, o próximo governo terá de fazer isso no dia seguinte.

Existe um nome de consenso para tocar a País e fazer as reformas?

Acho que não. Acredito que a eleição contará com abstenção elevada e, quem ganhar, será por margem apertada. A sociedade está muito mais dividida do que no passado, com interesses pulverizados, não tem salvador da pátria, está todo mundo descontente, desconfiado. O próximo presidente precisará ter uma tremenda habilidade política, credibilidade e força no diálogo para avançar nas reformas e levar adiante a agenda de ajuste estrutural, permanecendo firme no enfrentamento dos interesses. É importante considerar que o apoio político tem a ver com a postura da sociedadee das lideranças do setor privado. O que define um País que cresce é a qualidade da sua elite, e de uma sociedadeque sejatolerante com as reformas necessárias.Gostando-se ou não do que aconteceu com a nossa política, temos um governo que segue na direção correta e já estamos colhendo frutos disso.

Por exemplo?

A inflação caiu em razão da reorientação da política econômica. Já há reformas em andamento, como a trabalhista, que melhoram a produtividade e aumentam o potencial de crescimento. Mas a vida do empresário é infernal, com a complexidade tributária, a insegurança jurídica. O tal de Custo Brasil sufoca o potencial de crescimento. Essa agenda terá de ser minimamente trabalhada. No ambiente de negócios, há uma prioridade para a reforma tributária.

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